Trecho de um poema de Marcus Cremonese (1), chamado:"Das qualidades de cidadezinha do interior" (...) " Quero apenas um moto perpétuo de gemidos doces de carros-de-bois, mas daqueles de rodas maciças com dois buracos como olhos de bêbado." (...)
Introdução
O Carro de Boi: construção, as madeiras, o canto do carro e o boi carreiro
Cancioneiro e Modas de Tonico e Tinoco sobre carros de boi
Causos: Histórias que ficaram em nossa memória...
Comida dos Carreiros e suas receitas
Glossário: Definição das partes do carro de boi
Referências e Trabalhos Consultados
Eu, que nunca tinha chegado perto de um carro de boi, vi-me de
repente às voltas com as músicas de Tonico e Tinoco a falar do "ringir do
cocão". Indaguei do significado a um amigo mineiro de Montes Claros, que
consultou o pai, fazedor de carros e lá veio a resposta. Mas ai foi despertada
novamente minha veia de pesquisador e pensei comigo mesmo: vou estudar um pouco
este assunto e procurar na Internet para ver o que acho. A primeira conclusão que tirei foi de que o assunto era
vastíssimo, tal qual a viola caipira, ou seja, um assunto com raízes espalhadas
por todo o Brasil e que em algumas regiões como Goiás e Minas Gerais ainda faz
parte do dia-a-dia do sertanejo. Na Internet, o primeiro trabalho a me chamar a atenção foi o do
site de Serrano Neves (2), pesquisador de Goiás. Daí fui para o site que conta a
história do Seo Emídio, ituano dos bons(3). Finalmente fui apresentado para um
belíssimo livreto, feito em 1997 para a 8ª Festa do Peão de São Caetano do Sul (4).
Nele encontrei muitas informações sobre o carro de boi, numa condensação da
monografia inédita "O Carro de Boi", do pesquisador Horácio Ramalho, de
Taquaritinga, SP. A obra é apresentada pelo prefeito de S.C.do Sul da época,
Luiz Olinto Tortorello e seu filho Luiz Olinto Capovila Tortorello. Agora
faltava conhecer alguém que tivesse um carro de boi e como vocês sabem, São
Paulo, não é propriamente o melhor lugar para achá-lo. Num rasgo de sorte acabei
conhecendo um fazendeiro de Dois Córregos,SP, João Erasmo Berchol da Silva e
seu pai, Narcizo Berchol da Silva, donos do Sítio Córrego da Onça, naquele
município. Seu Narcizo foi carreiro e porisso João Erasmo adquiriu um belo carro
de boi e muito gentilmente colocou-o à minha disposição para conhecê-lo e
fotografá-lo. A seguir faltava conhecer o autor da "obra de arte". Para variar,
tinha que ser um mineiro, o Zequinha de Santa Rita de Caldas. José Garcia Pires,
o famoso Zequinha é em minha opinião um dos grandes artesãos do carro de boi.
O mestre Zequinha, fazendo o que mais gosta...
Introdução
Em sua produtiva vida de mestre artesão concebeu mais de 1000 carros, em quarenta
anos de atividade. Ele e sua esposa Vita nos brindaram com uma atenção e um
carinho que tocou fundo nosso coração.
Fez questão de nos iniciar nos segredos da construção deste singular meio de transporte e porisso todo trabalho que se segue é baseado no magnífico texto e esquemas de Horácio Ramalho, e em fotos, texto e gráficos de minha autoria, que foram obtidos a partir do trabalho e experiência do Zequinha.
Sei que apenas uma fresta de luz pode ter sido aberta com esta pesquisa para a divulgação do carro de boi, mas espero que ela atinja seu objetivo. Esperamos receber novas contribuições, sugestões, críticas e correções e principalmente saber de outros construtores, que se disponham a dividir conosco sua experiência e saber, nesta maravilhosa arte, que infelizmente não está deixando seguidores.
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Zequinha e suas ferramentas:Compasso de medida, arco de pua, enxós, graminho (para riscos retos), molde de cheda, trincha (para furar meião) , e sintero (compasso para fazer a roda). | Tipos diversos de formões franceses. Notar a oitava ferramenta, para fazer colher de pau e a décima-segunda, papuchinho, para fazer curvas na madeira. |
Um último mas importante detalhe: todos os termos usados neste trabalho são muitas vezes locais, variando de região para região, ou de Estado para Estado. Por exemplo, os nomes de árvores variam enormemente através do Brasil: a cabreúva, muito usada na confecção do carro de boi tem cerca de 15 nomes regionais, entre eles cabreúva em São Paulo, óleo em Minas Gerais e bálsamo no Paraná. A mesma coisa acontece com as partes constituintes do carro (ver glossário no final).
Vamos agora nos deliciar com o tema proposto, contado por gente que entende do riscado!Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar...
O carro de boi foi nosso principal meio de transporte no período colonial, no império e até na era republicana. Mas, vamos só falar da coisa em si, do que o Professor Ramalho reuniu ao longo dos anos, trocando prosa com carapinas, candieiros, carreiros, fazendeiros lá das bandas de Taquaritinga, Jaboticabal, Guariba, Monte Alto, Santa Adélia, e arredores. Juntou a ciência da feitura, "causos", muita coisa boa de se conhecer.
Visto de frente, de lado, de cima e de baixo, o bicho é veículo simples, de duas rodas. Todo feito de madeira, menos os aros das rodas, a chaveta e o argolão, que são de ferro, leva as cargas na mesa, que remonta no par de rodas e tem um varejão reforçado onde se atam os bois, chamado cabeçalho.
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Vista lateral do carro. |
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Vista superior do carro. |
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Foto da parte superior do carro, mostrando algumas das partes constantes do diagrama acima. |
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Vista do carro por baixo, notando-se as chedas , cabeçalho e o assoalho travados pelas arreias, em número de cinco. À direita vê-se o argolão, preso na ponta do cabeçalho, junto ao cadião. No meio da mesa vê-se os quatro cocões, dois de cada lado. |
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Parte dianteira do cabeçalho, mostrando a chaveta e a orelha.Aqui é presa a canga dos bois de coice. | Parte trazeira da mesa, conhecida como |
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Vista inferior do carro, vendo-se o eixo, as arreias que prendem o assoalho da mesa nas chedas curvas, e os cocões. | Detalhe do cocão, preso entre as emborgueiras, vendo-se a cantadeira e o chumaço, de madeira clara e mole. |
A mesa é feita de duas chedas que saem uma de cada lado, ligadas no cabeçalho e que apoiam o assoalho. As chedas e as arreias que as unem são feitas de cabreúva, madeira que nem se sabe se existe mais. O assoalho é de canelão, ou outra madeira nem muito dura, nem muito mole. Na parte de trás, fica o rebaixo (recavém).
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Roda de cabreúva, mostrando o agulhamento radial de botões metálicos e ao centro na almofada, os dois gatos, para proteger o meião de rachaduras.Observa-se ainda, as duas cavilhas cônicas travando a roda. |
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Diagrama da roda, mostrando suas partes: |
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Rodas de carro, semiprontas, de jacarandá da Bahia. Note que o meião ainda não foi cortado. | Uma das rodas ao lado, com o meião separado |
As rodas são de cabreúva, a parte do centro é chamada meião e lateralmente se limita com as duas cambotas. O meião, perto das cambotas, tem sempre dois buracos, o bocão, ou oca, que é para o som criar força e ecoar. O aro da roda é de ferro, e para ser calçado, é forjado na bigorna, a malho, redondo perfeito, então esquentado quase ao vermelho numa fogueira de roda. O ferreiro e os ajudantes o ajeitam em cima da roda, no chão, acertam rápido com golpes de malho para não ficar torcido e, estando paralelos, o esfriam com água. O ferro se contrai de a madeira estalar... Nunca ninguém mais tira. Os cravos de meio palmo eram só pelas dúvidas.
O eixo também é da desaparecida cabreúva, oitavado e com morgueiras do lado de dentro, para o chumaço não escapulir do cocão. São dois de cada lado, e é por donde gira o eixo. O chumaço deve, de preferência, ser feito de canelão, pra o carro realmente cantar. Madeira dura canta fino, de gaita, canelão canta de pombo ou canta baixo. Capixingui, baraúna e caviúna fazem carro
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Eixo de carro de boi, de cabreúva, lavrado à mão a partir de uma peça única de medidas aproximadas 180x22 centímetros. |
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Partes do eixo da roda. |
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Foto de um eixo montado com suas rodas. Pode-se notar a posição exata dos chumaços em cima das cantadeiras. |
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Vista lateral do conjunto, podendo-se ver o agulhamento, os gatos, as cavilhas prendendo a roda, as ocas e um chumaço. Estas lindas rodas são de jacarandá da Bahia e o eixo é de cabreúva.Notar a perpendicularidade entre os meiões, de tal forma que ao andar o carro, e por segurança, um dos dois meiões está sempre em contato com o chão. |
A canga tem quatro canzis, dois de cada lado, servindo um par para cada boi. É feita de cabreúva, açoita-cavalo, assapuva ou amendoim, algumas vezes revestida de couro cru. A de cabeçalho é mais pesada, pois segura os bois de coice, os primeiros depois do carro. Os canzis são feitos de peroba, guatambu ou alecrim, têm de ser lisos e bem volteados, para não machucar os bois. Os do cabeçalho têm de ser volteados juntamente com a canga, para o boi poder segurar o carro e parar, quando for preciso. A parte grossa da canga é a barriga, nela encontra-se o tamoeiro de couro cru torcido em várias voltas, que serve para a passagem do cabeçalho, seguro pela chaveta. A orelha é uma haste de madeira atravessada perto da chaveta e também serve para segurar o cabeçalho.
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Tipos de cangas. |
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Canga de coice ou cabeçalho, mais reforçada. Notar os canzis de madeira, as brochas e o tamoeiro central, peças de couro trançado. | Canga de meio ou guia, mais delgada, com as mesmas peças de madeira e couro. |
Na traseira do carro, há o argolão de ferro, que serve para engatar os bois para puxar o carro para trás, quando encalha, e para encangar os bois de retranca, quando a descida é muito forte. Nela se amarra a tiradeira, ou cambão, quando se tem que "depenar uma coruja", que é como o povo chama tirar o carro do atoleiro. O cambão é um varejão forte e reto feito de cabreúva, assapuva, guatambu ou peroba. Tem na parte da frente uma chaveta e, na de trás, o rabo, de couro cru, que se engata na chaveta da junta de bois anterior. Quanto mais bois na canga, mais cambões são usados. Também se usa rabo de corrente e gancho de ferro, mas o certo é o couro cru.
A mesa, sem os fueiros, de pouco serve. Fueiro é haste reta e forte, de carrapateiro, guaritá, assapuva ou peroba, que se encaixa nos furos dos lados do assoalho, em geral cinco de cada lado, dois na frente e dois no cadião. Seguram a carga e escoram a esteira, um trançado de taquara de mais ou menos um metro de altura, que fica em pé e tem abertura no fundo do carro. Fecha com atilhos de couro. Para proteger a carga, usa-se couro curtido inteiro de boi . Quatro deles cobrem um carro.
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1- tiradeira 2- chaveta e 3- rabo ou rabada. 4- vara de ferrão 5- ajoujo e 6- azeiteira e o pincel. |
Das tralhas miúdas, temos o ajoujo, que serve para amarrar os chifres de um boi ao outro, formando a junta. Também serve para aquietar menino danado... É feito de couro cru, tem mais ou menos duas braças de comprido. Os tamoeiros também são de couro cru torcido e volteiam as cangas, servindo para travar a frente dos cambões ou tiradeiras pelas chavetas. Temos também a brocha, que serve para amarrar os canzis por baixo do pescoço, para segurar o boi e evitar que a canga solte do cangote. Mede mais ou menos um palmo e é feita de couro cru torcido.
Há a escora, de madeira, que vai um palmo acima da canga e dois palmos e meio abaixo, servindo para apoiar o carro, quando parado, aliviando o peso nos bois de coice, ou para manter o cabeçalho na horizontal, quando desatrelado. Cabeçalho no chão dá azar.
Finalmente, existe a vara de ferrão, de carrapateiro e até de peroba, na frente leva ponteiro de ferro que, antes da ponta, tem furo com duas ou três argolas de ferro, que chacoalham e, assim, o boi já sabe que lá vem cutucão e desamua, ou arranca mais. Carreiro bom não espeta boi de tirar sangue. Só ponteia, depois o bicho se mexe só pelo barulho das argolas. Quando tem muitas juntas, costuma-se amarrar na ponta do ferrão uma tira comprida de couro, para alcançar e deixar os bois lá da frente mais espertos.
As madeiras empregadas para fabricar carros de boi são, em geral, as seguintes(5): Mesa: sucupira, óleo vermelho (cabreúva), ipê, tabaco, garapa cipó,
jacarandá da Bahia. Chedas: sucupira e as demais usadas na mesa. Eixo: óleo vermelho. Arreias: roxinho, óleo. Tornos ou pinos: roxinho, óleo. Fueiros: tambu, garapa, pitangueira, guamirim,calcanhar de cotia. Cavilha: roxinho ou óleo vermelho. Pigarro: óleo vermelho ou sucupira. Cocões: óleo vermelho.
Chumaço: canela sebosa, leiteiro, figueira sangra dágua. Canga: bico de pato, caviúna, sapuva(saperetê), jacarandazinho
da várzea(sapuvão) e jacarandá. Canzil: laranjeira da mata virgem, roxinho, peroba, ipê,
laranjeira de casa, óleo pardo, pitangueira e pequiá. Tamanho das peças do carro de boi Mesa: comprimento 3 metros por 1,30 de largura. Cabeçalho: 4,5 a 5 metros. Eixo: 1,65m de comprimento e 22 centímetros de espessura
ou 9 polegadas. Roda: 1,20m de altura. Fueiros: 1,20 a 1,50m de comprimento. Nota: Estas medidas variam de acordo com os fabricantes
e o tamanho do carro.
Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, não ouve mais. Parece que onde chegam as técnicas e tecnologias de fazer tudo mais depressa, como se o mundo fosse acabar ontem, a poesia acaba desmantelada. Porque o carro de boi não canta por boniteza, somente. Canta por precisão. A vida do carro está na cantiga. Carro de boi, de pau, que não canta, não é carro. É tranqueira com rodas, coisa morta, desservida de encantamento. Porque se há muita carga e o carro canta de gaita, a gente mata os bois. Eles ficam destrambelhados, se estouram no esforço. Mas se o carro canta de baixão, vão lá naquele passo deles, na mesmice de boi deles, em paz com Deus e com o mundo. E se é trabalho corriqueiro, normal, então é bom o carro cantar de pombo, nem para cima, nem para baixo. Pois, estes são os três tons de cantar dos carros: pombo, que é médio, macio. Gaita, fino e alto. E baixão, que é grosso e grave.
Carro cantador não vareia, não descontinua nem destoa nem mesmo nas bacadas mais brutas, ou manobras de vai-e-vem. Léguas longe, quem sabe e conhece percebe a alma do carro chegando muito antes que se possa pôr os olhos nele. Porque o canto do carro é isso: é sua alma, é a alma do carreiro, é o jeito que Deus deu para enfeitar a existência dos bois e dos carreiros pelos caminhos do sertão e da vida.
O BoiNo geral, os carros atrelam oito bois, mas podem ser dois, quatro, se há muito peso, dez, doze, até uns dezesseis. Mais, é desperdício, pouco carro prá muito boi.
Boi de cabeçalho, ou de coice, é boi de força, de servidão garantida, arrasto firme.
É boi de confiança, os primeiros depois do carro. Já os do pé da guia podem ser menores, mas sabidos, e os da chave e contra-chave podem ser meio bravos, pois atrelados no meio, entre os outros, não causam problemas. Idade boa para amansar boi é pelos três anos e meio. Alguns trabalham até 25 anos, mesmo 30. Para quem não sabe, que fique sabendo: boi é capão, não serve para tirar cria. Touro é outra história. Chamar um de boi, pode trazer confusão. Mas houve esperto que acabou pondo vaca a puxar carro... Um trem desse ninguém leva a sério.
Quando os bois não têm muito trabalho, carreiro bom atrela do mesmo jeito no carro: "Nóis ponhamo bastante boi, que é preles num ficá vadiano" Se boi fica gordo, não tem serventia, não resiste mais o esforço.
Nome de boi é sentimento. É presente para o bicho no dia que nasce. A gente olha, lá dentro acontece a inspiração e vem o nome: Fumaça, Melindroso, Coração, Dourado, Maneiro, Faceiro, Formoso, Espadilha, Sete de Ouro. Estrela, Malhado, Turuna, Namorado, Pitanga, Corumbá, Maravilha, Limoeiro. Montanha, Brioso, Barroso, Moreno, Mulato, Ponteiro, Caruaru, Cravinho, Cruzeiro. Teve até um que tinha olho puxado, virou Sakamoto, lá no Sitio Bom Destino, em Santa Rosa do Viterbo. Nome de boi é isso, é poesia, tá ali na qualidade, na cor, no jeitão, na prosopopéia do bicho.
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Bonitos... | Obedientes... |
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Dóceis... | Fortes... |
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Iguais... | De sela... |
Sempre há as crendices, as coisas de fé, de imaginação, e tentativas de explicar algo que não tem resposta. São o domínio do Saci, do Coisa-ruim, assim por diante:
- "Ponhá o cabeçalho do carro no chão não presta. Atrasa o dono. Tem de ficar escorado pras coisas estarem no lugar".
- Desencalhe do carro é chamado de "depenar coruja". Vai ver, porque é ave ruim de despenar. O professor Ramalho conta que um carreiro lhe disse:
"- Compadre, depenei um corujão na subida do riacho do Tijuco"...
- Pra pegar boi brabo, arisco, a gente pega uma espiga de milho, passa debaixo d'um braço esquerdo, adepois do outro, e dá pr'o boi comer. Fica tão manso que até vem de encontro. Ou se a gente mistura açúcar no sal três vezes, o boi se acostuma, vê o carreiro e já vem até encontrar".
- "Pra carro de desafeto parar de cantar, a gente espera passar na beira d'um rio, cospe na terra da margem, pega ela e passa ela na cantadeira... claro, sem o dono ver.
- Pra deixar carreiro sorococando de raiva, na hora do pouso, sem o decente saber, a gente troca os chumaços do carro dele, botando um de caudéia, outro de cedro. Daí que o carro fica com duas vozes, desafinado, e o dono chifra o chão por causa do desentôo. Pr'a quem não sabe, caudéia e cedro são madeiras".
Pra desencalhar um carro do jeito mais antigo: a gente vira a parte da chavelha para trás da tiradeira da frente, enquanto vai dizendo "- Turumbamba na Gambemba" que uns diz que quer dizer "- Carne seca do Diabo", na língua dos pretos da Costa. Diz-que funciona!".
- Pra descangar boi jogador de canga, desses que na hora que a gente desabrocha ele, o danado arremessa a armação pr'a trás, que é coisa perigosa, o jeito é desabrochar o canzil do lado de fora, quando estiver perto do lugar de descangar. O boi é enganado, quando vir, já tirou-se a canga e ele nada fará".
José Mendes de Barros, da fazenda Diamantina, de Taquaritinga, foi carreiro mais de cinquenta anos, e ensinou as seguintes receitas:
Febre de Gado: carqueja e perobinha. Esta serve igual para curso branco.
Carrapatos: sal e cinza na pele do boi é santo remédio.
Dor de barriga: leite e azeite doce. Também é bom butica-inteira ou então joão de castro, perobinha ou abóbra de anta, um cipozinho que dá uma batata que cura cólica. Três pimentas do reino, dadas ao boi, também curam.
Micuim (inseto que péla o animal, deixando a pele toda ferida): lavar com sabão e creolina, ou limão com sal antes de virar ferida.
Limpar o sangue: sal amargo com farelo.
Ferimentos: banhar a parte machucada do boi com infusão de sorda, (planta rasteira, que se parece com a batata doce). Melão de São Caetano com azeite de mamona também é remédio certo. Salmoura também é bom.
Rins: carrapichinho rasteiro, como chá ou banhos.
Fetosa : chá de abrobera.
Figueira, grosseira ou caroços, tubérculos: rebatiza-se o boi com o nome de Figuera, corta-se a figueira e se queima, e o boi sara.
Quando boi está empachado, pega-se um punhado de terra na frente de um portão, põe-se num pano bem limpo, amarra direitinho. Daí, ferve o atado fazendo um chá que para o boi, e acaba com o empachamento. Se está doente do rim, a gente dá chá de chapéu de couro, erva-tostão ou jurubeba. Se o mal é do figado, dá chá de capeva e jurubeba. Rebentão é bom pra urina presa. Mistura de sal e cinzas é purga certa contra empachamento.
Difícil de encontrar versos, trovas, modinhas inéditas dos carreiros. Já com o advento do rádio, duplas caipiras e cantores levaram essa riqueza ao público. Mas há estrofe perdida, um restinho de verso aqui, outro ali, gostinho do que nunca foi escrito, só dito ou cantado.
Tem um verso que diz:
Sabiá matou meu boi
pendurô no perová...
que não está falando da maldade de um sabiá, mas da raiva que o passarinho ficou por causa do carro cantar melhor que ele.
Ou este, a respeito de encalhe ruim:
Por isso mesmo,
Que eu não quero carreá
O carro tomba
O candieiro passa má...
Há uma modinha (Boi Amarelinho) que conta a história do boi carreiro desde o dia que nasceu, é quando morreu num matadouro, depois de trabalhar a vida toda:
Eu sou aquele boizinho
Que nasceu no mês de maio
Desde o dia em que nasci
Fui sofrendo meus trabaio...
[.....................................]
Me amansaro de cabeçaio
P 'ra trabaiá no carretão
Com a vara de ferrão.
Já no fim, quando o boi é vendido para o matadouro por não poder , a modinha assim procura despertar a compaixão pela vida de boi:
Adeus, Campina Grande
Sertão de Cuiabá
Quem tirá o meu couro
Sem camisa há de ficá..
Duas coisas neste mundo,
Que o meu boi num qué:
Canga de embaúba
E brocha de sapé...
Tenho meu carro de pau
Canta gaita e baixão
Que é a minha alegria
Agora que estou velho
E que vivo na tirania...
Diz-que, sempre, tem nas histórias os que fazem pacto c'o Sem Nome, o Coisa Ruim, o Diancho... Os versos que vêm aí foram ouvidos do veterano Benedito Castilho, que por seu lado os ouvira de Tonico Pedro, carreiro de nomeada lá de Ururai, município de Santa Adélia:
O Carreiro Venâncio
| A história sempre persiste Na zona do campo triste. Um velho, lá, inda existe Que ficou bem recordado Do tal carreiro falado E da proeza do seu gado. Diz-que ficou famoso Por ter parte c 'o tinhoso E seus doze bois barroso De chifre todas volteados Fortes como uns danados E pelo diabo amestrados. Venâncio, o tal carreiro Não via estrada ou brejero Tudo pr 'ele era manero. Encontrou, certa acasião, Na carga do Fundão Enterrada até o cocão Um carro bem carregado Só de dormente serrado E era mais do que pesado. Venâncio disse ao carreiro: - "Seu cara de candieiro! Tira dai teus carneiro. |
Meus bois são esquisito, Não gosta muita de grito Nem dá trela prá cabrita..." Logo combinaram, pois Que era preciso que os dois Trocassem, do carro, os bois. Venâncio botou seu gado Naquele carro atolado E ficou meio calado. Coisa que nunca se viu! O carro arrastado saiu E o que somente se ouviu Foi chocalhar de ferrão Dois estouro de cocão E os bois de joelhos no chão. Vendera a alma ao Danado E dele era aquele gado. E teria um triste fado. Era a boato que corria Que Venâncio não morria Pois o diabo o levaria. Era isto voz corrente Mas Venâncio foi um bom crente, Morreu como toda gente... |
Modas de Tonico e Tinoco
Boi de Carro
Autores: Tonico, Tinoco e Anacleto Rosas Jr.
Na manguera
Da fazenda do Lajado
Conheci um boi maiado
Descaído como quê
Tempo de moço
Quando eu era candiero
Boi Maiado era ligero
Trabaiava com você.
Boi de carro
Hoje véio rejeitado
Seu congote calejado
Da canga que te prendeu
Boi de carro
Eu ainda sô teu cumpanheiro
Eu to véio sem dinheiro
Teu destino é iguá o meu
Boi de carro
Sem valia tá afrontado
De puxá carro pesado
Costume que os patrão fais
Eu trabaiei
Trinta ano e fui quebrado
Do lugá foi despachado
Diz que eu já não presto mais.
Boi de carro
Seu oiá triste parado
Ruminando já cansado
Cô desprezo do patrão
Boi de carro
Eu também to ruminando
Essa mágoa vô levando
Dos home sem coração.
Boi de carro
O seu dia tá marcado
Pro corte foi negociado
P'rá mata no fim do méis
Adeus maiado
Meu sentimento é profundo
Vou andando pelo mundo
Esperando a minha veis.
Carreiro Sebastião
Autor: Carreirinho
O meu nome é Sebastião Rodrigues de Carvalho
Fui carreiro e com saudade lembro os tempos de trabalho
Hoje eu moro na cidade, mas nem de casa não saio
Chego a sonhar com meu carro cortando pelos atalhos
Quatorze boi todos moiro, desde a guia ao cabeçalho.
Nome da minha boiada até hoje estou lembrado
Redondo e Marechal; Craveiro e Desejado;
Jagunço e o Violento; Estrangeiro e Numerado;
Retaco e o Barão, boi baixo arreforçado
O Maneiro e o Rochedo, doze boi aparelhado.
Na junta do cabeçalho, Ouro Preto e Coração
José Martins de Azevedo, o nome do meu patrão
Na fazenda São Luiz, onde eu morei um tempão
Cortava aquele serrado lotadinho de algodão
Dava um dueto doído o gemido do cocão.
Hoje eu moro na cidade mais não posso acostumar
Em outubro fez dois anos que eu deixei de carrear
Às vezes quando estou sozinho eu começo a lembrar
Parece que estou escutando o meu carro a cantar
Eu nasci pra ser carreiro não nego meu naturar.
João Carreiro
Autor: Raul Torres
O meu nome é João Carreiro / Conhecido no lugar / Eu vou contar minha história / Prá vocês não duvidar Já tou véio aperreado / Já não posso carrear / Mas o galo quando morre / Deixa as penas por sinar No tempo que eu fui carreiro / fui caboclo arrespeitado / Com quatro juntas de bois / caminhava sossegado Distancia de meia légua, quando subia o cerrado Ai, o cocão ringidô, era dueto chorado. Pareia de cabeçalho / Beija Flor e Muzambinho / Pareia de boi na guia / Fortaleza e Caboclinho Sob a guia caminhava / Riachão e Riachinho... / Vamos simbora Sereno / Pareia de Passarinho No riacho da Graúna / Quando meu carro parava / Os zóio de uma cabocla / meu coração cutucava Na vorta lá da cidade / De novo por lá passava / E os zóio dessa cabocla / De novo me provocava... Assim fiquemo um tempão / Cinco mês fiquemo assim / Eu com arreceio dela / Ela com medo de mim Um dia criei coragem / Falei com ela por fim / Essa cabocla chamava / Corina Flôr do Alecrim O alecrim não tem espinho / E é danado prá cheirar / E mesmo não tendo espinho / alecrim pode magoar Corina Flôr do Alecrim / Só soube me ajudiar / Me prometeu tanta ventura / E só me trouxe penar Só tive um amor na vida / Tristeza me veio dar / Fiquei véio aperreado / Já não posso carrear Já contei a minha história / Antes de outro contar / Onde meu carro passou / deixou rastro por sinar
Carro de Boi
Autor: Tonico
Meu véio carro de boi, pouco a pouco apodrecendo
Na chuva, sor e sereno, sozinho, aqui desprezado
Hoje ninguém mais se alembra que ocê abria picada
Abrindo novas estrada, formando vila e povoado
Meu véio carro de boi, trabaiaste tantos ano
O progresso comandando no transporte do sertão
Hoje é um traste véio, apodreceu no relento
No museu do esquecimento, na consciência do patrão
Meu véio carro de boi, a sua cantiga amarga
No peso bruto da carga, o seu cocão ringidor
Meu véio carro de boi, quantas coisa ocê retrata
A estrada a a verde mata,e o tempo do meu amor
Meu véio carro de boi, é o fim da estrada cumprida
Puxando a carga da vida, a mais pesada bagage
E abraçando o cabeçaio, o nome dos boi dizendo
O carreiro foi morrendo, chegou no fim da viage.
Boi Amarelinho
Autor: Raul Torres
Eu sô aquele boizinho Que nasceu no mês de maio, Ai desde que eu vim no mundo Foi só pra sofrê trabaio. Fizero logo o batismo na marge do riozinho, Por causo da minha cor Foi chamado amarelinho. Quando eu tinha ano e meio fizero amansação, Puxando carro pesado E tora no carretão. Carrero que me adomava Me fazia judiação, Dei uma chifrada nele Que varou no coração. Ai meu patrão já disse: - Vou mandá esse boi pro corte, Não trabaia no meu carro Boi que já deve uma morte. Eu chegei no matadô, Não encontrava saída, Amarraro no palanque, Entreguei a minha vida. O marvado carnicero Correu amolá o facão, Me largou uma facada Bem certo no coração. Botei meu joeio em terra, Vendo meu sangue corrê, Meu corpo todo tremia, Berrava pra não morrê. Adeus campo de Varginha, Terra de Minas Gerais, Os óio que lá me viro, Amanhã não me vê mais.
Velho Carreiro
Autores: Tonico e Zé Paioça
Carreiro chora baixinho
Por alguem que já se foi
Cortando triste o caminho
No passo lento do boi.
Oi, oi, oi
Gritando o carreiro vai
Cada grito é um lamento
Que do peito véio sai.
Sua gaúcha querida
Muito tempo acompanhô
Hoje só resta na vida
Saudade do seu amô.
Oi, oi, oi
Gritando o carreiro vai
Cada grito é um lamento
Que do peito véio sai.
Carreiro já está quebrado
O rosto véio enrugano
Com o trabaio do seu carro
Puxado por tantos anos.
Oi, oi, oi
Gritando o carreiro vai
Cada grito é um lamento
Que do véio peito sai.
Os "causos": essas estórias que a gente ouve e nunca cansa de
escutar. Como eram contados à noite, depois da matulagem, falam sempre de
assombração, coisa de não se sabe onde, bicho que não é bicho, coisas de
espantar o ouvinte. Ainda mais se é novato, não é de lá, pois muita coisa só
acontece no sertão. Quem quiser que se compadeça, pois alma penada é o que não
falta. A linguagem foi conservada conforme o contador do "causo", pois se quem
conta um conto aumenta um ponto, não tem direito de reinventar. O FIM DO CARREIRO E DO PATRÃO MALVADO (Compilado pelo Professor Horácio Ramalho) No tempo da escravidão, havia um dono de fazenda danado de
ruim. Judiava dos negros sem razão ou necessidade. E, todos os dias, era preciso
trazer os bois de carro para o curral. Tinha um carreiro, um preto pr'a lá de
velho , e nesse dia o Danação fez que faltasse um boi de coice dos mais
considerados. O escravo já tinha levado uns cascorão por causa do sumiço de um
boi de guia e o patrão, resfolegando fogo pelas ventas, quis saber dos bois. - Não sei, não sinhô - disse o velho, se atravancando todo. O fazendeiro surrou o negro, gritando-lhe que sumisse e que não
voltasse sem os bois. O preto velho foi, pois o desaparecido era bicho de muita
querência e estima. Depois de muito campear pela pastaria, deu com o boi na
beira do rio, só que todo enrolado por imensa sucuri. Enquanto rezava para Nossa Senhora que tinha de levar o boi
senão o patrão me mata, pegou o facão e tentou salvar o bicho que já agonizava.
Arremeteu e a cobra, com a dor dos cortes, dava rabanadas, e violentas. Pegou o
negro na cabeça, acabou com o coitado. Daí a pouco chega o fazendeiro inconformado que, inteirando-se
da situação, baixa do cavalo e foi chicotear a sucuri. E a cobra imensa, toda
retalhada de facão, num estertor se enrolou no homem, terrível abraço de morte
para os dois. Foi arrochando, apertando, esmagando... Desde então, o local ficou assombrado, evitado por todos, pois
quem por ali se aventurasse, desavisado, via umas sombras se enrolando, ouvia
gemidos assustadores, barulho de costela quebrando, a voz de um preto velho
aboiando, um boi mugindo pela maldade do patrão. A MOÇA QUE ATOLOU NO BREJO (Relato de Jayme Venâncio, lá de Santa Rosa do
Viterbo) Diz que micuim de amor não tem juízo. Daí, que o fazendeiro de
infinitas léguas, coroné de baraço e cutelo, pegou umas rosquinhas, uma garrafa
de licor de jenipapo, a filha dum compadre de coronelice e farreio, moça alemoa
solteira e fogosa, ponhou tudo no carrão recém chegado das Oropa e disparou
pr'os lajedos do Rio Pardo, perto d'onde hoje ainda é a Fazenda Amália, só pr'a
vadiá. Casado e renomado, quando passava com o carrão preto roncando, até
galinha ficava uma semana sem botá. Mas, perto do Águas Claras, a moça grudou ele, o fazendeiro
perdeu o bridão do monstro e os dois meteram os quarenta cavalos no afamado
Brejão dos Sapo, do lado da estrada. E veio gente, tentaram com burro de tropa,
e puxa e repuxa, o carro parecia era cada vez mais grudado, nada de despená. Aí, num carro de boi cantador de gaita, veio chegando o Paulino
Venâncio, pai do contador que então era menino, devagar como se tivesse a vida
inteira pr'a chegar em nenhum canto. Tinha oito boi na junta, desses de encher
os zóio, cada beleza de animal que Deus fez só para se gabar. Chegou, parou, assuntou e riu dum jeito matreiro, lá com seus
bigodão. Não gostava muito do fulano, e aquela história ia correr o mundo.
Ademais a moça era filha de terratenente jagunceiro arrespeitado. Diz-que
acoitava o Dioguinho. E a mulher do atolado era uma jaguatirica de braba, dessas
de capá marrote só de zoiá. - Ô Paulino! Desatrela os bois, puxa meu carro desse atoleiro
desgraçado! - Ô, Coroné!...Uai, sô! 'cê num disse que esse trem tem mais de
quarenta cavalo? E tá pedindo ajuda de boi? E o outro implorou que desatrelasse os oito bois, a moça
atolada dentro do carro chorando, aquele povo de capiau na flirtiva se
rindo. - Tá bão, cumpadre! Vou arrezorvê! Vou tirá essa porquera
pr'ocê! Gritou para o Aquiles Grande, o carreiro, que desatrelasse só a
junta de guia, pois para tirar uma tranqueira daquelas, dois boizinhos bastavam.
O Sakamoto e o Graúna, no aboio e som do ferrão e atolados até na barbela, foram
puxando, estirando e, dai a pouco máquina, moça e licor de jenipapo estavam na
estrada, tudo despenado. Porque boi, contrário de mula e burro, não dá tranco,
arrancada, solavanco. Puxa estirado, vai aumentando a força devagar, na
sabedoria. Aí, pr'a encurtar essa prosa que já foi longe demais, o fazendeiro
disse que o Venâncio podia pedir o que quisesse, já que viu que ele não
desgrudava o olho da alemoa, moça ancuda e volteada, parecendo 'té canga
ajeitada nas curva das beleza lá dela, agarrada c'o a garrafa de licor. Venâncio coçou a barba, ajeitou o bigodão, assuntando a moça,
olho no fulano, foi e voltou, rezoiou, parecendo boi ruminando lá as maracutáia
dele. - Êh, trem bão... 'tá bão! Só que num sei se 'ocê vai dá
concordânça! O que eu vô querê, acho que ocê num vai querê me dá! O fazendeiro, que não queria ser o único a responder por
descaminho de moça solteira, crime naquela época, filha de acoitador de jagunço,
coisa pior ainda, já basofiou, montado nas botas de canela alta embolostradas de
barro: - Pois, Seu Venâncio: é só pedir e pode levar! A moça abriu o berreiro, soluçando fundo e magoado. - Pois, Seu Fabrício: pode me passá a garrafa de jenipapo, aí,
que inté 'tá bem pagado, pela tunda que meus dois boi deu nos seus quarenta
cavalo... A ONÇA DA FAZENDA FIGUEIRA (Narrado por Evaristo Ramalho, antigo carreiro e
fazendeiro) Na Estrada de Ferro Araraquarense, íamos uma vez da Fazenda São
Domingos para a estação com cinco carros de boi carregados de café. Arranchamos
perto da Fazenda Figueira. Não tinha muita mata, mas era um pé de serra, de
baixada, plano e bem achegado. Fizemos a comida com os caldeirões pendurados nos
argolões dos carros pois ameaçava chuva. E veio. Veio de afogar o mundo. Assim
que foi embora, o pessoal reuniu-se para a comida. Na hora do licor de jabuticaba, pertinho-pertinho ouvimos o
esturro forte de uma onça... Largamos tudo, até a garrafa de licor e as canecas,
subimos de avoada num dos carros, o Abel, o Amâncio, enfim, todo o povo. Outro
esturro, e os bois rebentaram as peias e desandaram no mundo, tropelão
desarvorado. Bem na nossa frente, apareceu a pintada, de patonas tortas,
calma e dona do seu passo. Veio vindo, comeu das comidas e, espanto: bebeu, com
lambidas de quem entende do assunto, o licor de jaboticaba das canecas e o que
caía da garrafa. A gente já estava pensando em jogar o preto Amâncio pr'ela,
pois o povo diz que onça gosta de carne de africano e vem pelo faro. Mas o
Amâncio puxou um garruchão 44, rosnando que se cristão chegasse cristão que
matasse, e a gente mudou de idéia. Dissemos que atirasse nela, mas ele disse que
a garrucha era só de matar gente. Foi que a onça, depois de comer e beber o de
fartar, se ajeitou na trilha e lá se foi num passo meio tropeçado, andando meio
de lado, miando meio enrolado... Coisa assim, só pode ser reinação do
Perneta! CÓRREGO DO NEGRO Narrativa de Benedito Castilho, de Santa Adélia) No Município de Santa Adélia, tem um riacho chamado Córrego do
Negro. O povo lembra um episódio para justificar o nome, da época do afamado
José Francisco de Castilho, o "Capa Preta", bisavô do contador. Tinha um escravo que o ajudava na ferraria. Ninguém sabe por
quê, numa feita o escravo segurava uma peça em brasa, enquanto o Capa Preta
malhava a extremidade, e eis que o preto tentou enfiar a peça de ferro quente na
barriga de Castilho. No lufa-lufa aprisionaram o negro, que foi castigado. O escravo
fora-lhe emprestado por um compadre de longe, sertão a dentro, e o Capa Preta
armou um carro de boi e nele pôs o escravo muito bem atado, para devolver ao
amigo. Chegados à altura do mencionado córrego, pararam o carro para a
refeição. Castilho e os companheiros, atarefados em juntar lenha, atiçar o fogo
e cozinhar os pertences da comida, esqueceram-se do negro. Voltando ao carro,
talvez para levar alguma comida ao prisioneiro, surpresa: tinha escapulido,
desaparecendo no cerrado ralo. Ficaram otimistas, pois o danado estava muito bem
atado. Nada nunca encontraram, a não ser as correias debaixo do carro. Correram,
campearam os arredores, até a mata cerrada que começava perto esmiuçaram. Nada.
Escafedera. Nunca mais se soube do escravo. Desde então, o córrego e, depois, o bairro, ficaram conhecidos
pelo nome de Córrego do Negro, que perdura até nossos dias. Os antigos moradores
juram que o fujão, no mínimo, tinha um pacto com o Coisa Ruim. O CARRO ASSOMBRADO (Compilação de Horácio Ramalho) A Fazenda São Domingos empregara, lá pelos idos de 1915, um
trabalhador que já estivera nas guerras da Itália e ficara alterado das
faculdades mentais. Era chamado de Rafaelão por sua desmesurada altura. Arredio,
falava sozinho, resmungando com voz gaga, entrecortada, grossa e cava. Ninguém
queria graça com ele, receavam-no, apesar que quando tentavam o diálogo ou
brincadeira, o homenzarrão mais se retraisse. Um dia, como sempre ninguém sabe
por quê, Rafaelão pegou um revólver e ao ver passar o preto-velho de nome
Maceió, gritou: -Maceió! Se aprepara, peste! Vou te matar! E atirou mesmo,
ferindo-o no braço. Maceió correu para a sede da fazenda procurando o patrão
José Ramalho. Este mandou-o tratar e avisar a polícia. No mesmo dia, o sargento
do destacamento veio em pessoa para prender o Rafaelão que desaparecera na
invernada. Bulha que te bulha, o sargento o acurralou num resto de mata, lá em
cima de um pé-de-pau. Deu-lhe voz de prisão. Veio um mundo de bala de volta.
Tiro vai, tiro vem, Rafaelão acabou tombando, morto de fuzil Mauser, antes de
bater no chão. Foi um deus-nos-acuda. José Ramalho mandou um carro de boi
buscar o cadáver para levar à cidade. O carreiro foi, fez e voltou, chegando
tarde da noite, meio assustado com a carga que transportara. Seu carro sempre
fora un dos melhores cantadores da fazenda, de tom baixo, melodioso, contínuo,
com o que os bois andavam cadenciados, no passo certo, sem desmandos ou
estropelias Ouvia-se de léguas, sendo por todos admirado. Pois bem: diziam os carreiros e passou-se de geração a geração,
que depois dessa viagem funerária tudo mudara... E faziam o diabo para não ter
de usar esse carro de boi. Sem motivo concreto, ele, que pelas estradas nunca
deixara de encantar com o canto firme, continuado, grave e harmonioso, até em
bacada bruta, passara a resmungar baixo, entrecortado, gago, um canto grosso
resmungado, parecido com o monólogo desvairado do Rafaelão. PROMESSA DE CARREIRO (Causo de Benedito Castilho, fazendeiro e carreiro de Santa
Adélia). Pra falar a verdade, nessa longa vida de carreiro, nunca vi
coisa assim esquisita, que a gente pudesse gabar-se de ter visto, difícil de a
gente contar. Pois, nossa lida de antanho era porfia dura: sol, chuva, caminhos
ruins, a tripas roncando de fome, noites desdormidas encima de um couro cru,
debaixo do mesão do carro, isso era pão-nosso-de-cada- dia... Comecei a gatinhar por debaixo de eixo, aprumei pegando nos
cambão andei tentando pegar cabeçaio. Puro mal de família, coisa no sangue. Pai
carreiro carreiro o avô... Mas o Vô, o véio Zé Bento, aquele tinha muito do que contar,
vivo fosse. Despachado na vida, era homem sem cisma nem querência, mas de pura
serventia, existência passada num cabeçalho de carro, escuitando vida afora o
canto do chumaços, das cantadeiras se esparramando pelo sertão do nosso Brasil.
Muita estrada veio nos picadão por ele cortado nas matas virgens. Homem inteiro, curtido na lixa dura do oficio... Se gostava da
minha avó, disso não afirmo nem descontrario, mas o carro e a boiada, aí sim,
posso jurar. Fez de meu pai outro mestre carreiro, a custa de muita sova de
ajoujo, mas fez. E o que é de raça, corre e caça! O pai, que Deus o tenha em sua graça, contava que só com dez
anos, cangava os bois de cabeçalho, com doze pegou o gado no meio de uma quiçada
e aviou o carro que estava especado na beira duma estrada carregado de telha,
sozinho de sozinho... Se não acreditar, não me enfado, nem fico desenxabido, mas
vou contar: 'tavam meu pai e meu avô carreando telha para um coronel. Eram três
dias puxados de caminho ruim. No meio tinha um riacho que corria por um barreal
preto, formando um tijuco danado para atolar. Pr'a escorar as rodas, só tinha
ali macaúba, era um descampado de sapezeiro de sumir de vista, não se achava nem
uma vara para matar uma cobra. Eles fez um estivado de macaúba, mas quando o
carro já ia terminando de passar, uma lasca se rebentou e o carro atolou até o
eixo, por sorte os bois já 'tavam no seco. O Vô mandou meu pai chamar a guia na reta, e quando as cinco
juntas alinharam, bateu a vara de ferrão cantando as argolas e chamou os nomes
dos bois da linha de chave. Que eram os turunas deles todos... O carro arrancou bonito mas, ao sair, os bois da contra-chave e
coice falsearam, e os quatro canzis da chave quebraram. O Vô desatou um balaio
de palavrão, pois se o pior tinha passado, ele só tinha um par de canzis
novos. Ruminou lá duas idéias, colocou os canzis que tinha num dos
bois, tirou outro par dum guia e pôs no outro da chave. Mas ainda era muito
peso, não dava para seguir só com oito bois. E o Véio Bento, então, decidido, arrancou o facão e partiu
firme para a cruz de Nhô Inácio, ali pertinho, bem na beira da estrada. - Não, pai! Isso é pecado! - Pecado porcaria nenhuma! Pecado é deixá boi assando nesse
solão... E a gente tem de andar mais de légua para achar um mato e tirar um
pau... Desfez a cruz, usou os braços para substituir os canzis, e lá
foram. E légua e tanto depois, chegaram à beira da mata, coisa de fazer medo.
Soltaram os bois na várzea, enquanto meu pai esquentava a matula meu avô entrou
no mato, tirou um par de canzis de perobinha e os pôs no lugar do outro, feito
com a madeira da cruz. Ia jogar no foguinho que esquentava a comida, mas vai saber se
por respeito, que medo de nada ele não conhecia, vai saber se por lembrança,
pendurou os paus da cruz com brocha e tudo num fueiro do carro. E veio a noite, noitão de beira de matão imenso, lerda e
preguiçosa, imensa de escura e negra só para um menino. Tinha todos os barulhos
da noite no boqueirão, até que de repente um silêncio esbarrou no tempo, se
escancarou na boca da mata. O Vô e meu pai, ali, de olho estalado, debaixo do
carro, num sono que não vinha, nem veio. Inté que a mataria alumiou, como nasce um dia, porque a lua, no
seu terceiro dia de cheia, subia no lombo do arvoredo, luz branca e fria. E meu
pai a desfiar idéias, entre o piado triste do curiango e o agoureio da coruja,
um que outro gemido denso do mutum lá no fundo dos confins... Ninguém despregava o olho da estrada. Não careceu de muito
tempo. Com a voz entalada e tremendo, o pai gaguejou pr'a o Vô: -Pai! Laivem ele... -Quem? -O Nhô Inácio, pai... -Fecha os zóio e faz que 'tá drumindo! Não fez, mesmo! Arrepiado que nem gato do mato na ribanceira,
dentes castanhando, viu o vulto vir até o carro, tirar os canzis do fueiro e
zarpar estrada afora. Ficou vendo, longe, os canzis bamboleando nas brochas,
quando batiam nas pernas compridas de Nhô Inácio. Prá não dizer, o resto da
noite foi só cochiladas, sacudões de medo... Quando a lua faltava coisa de légua pr'a descambar pró outro
lado do mundo, o Vô levantou, mastigou um pedaço de rapadura, acendeu um cigarro
de palha, pegou o facão e disse pr'o pai: -Quando o dia sair, pegue os bois, vai fazendo o que puder até
eu voltar! E foi pr'o mato, cortou um pau e tirou uma rodilha de cipó e
foi de volta. Meu pai fez tudo talqualzinho, cangou guia, chave e coice, arrumou
toda a tralha e esperou até que o Vô chegasse. Ao menos ficou ficou sabendo que já era, de verdade, um
carreiro.Tinha tangido, cangado e atrelado todas as juntas com perfeição, feito
veterano. O Vô voltou, assuntou, fez "Hum!" e nunca falaram mais disso, menos
ainda da assombração. De aí, e por muito tempo depois, o povo que passava pela cruz
de Nhô Inácio e via os canzis balançando, quando o vento soprava, no braço da
cruz de guatambu amarrada com cipó, nunca supunha que o defunto é que tinha ido
buscar, no meio da noite, quase matando meu pai de susto. O Vô, tenho certeza,
sequer tremeu na pele dele. Ficavam pensando que era promessa de carreiro, dessas
acontecidas em hora de desastre ou desgraceira ruim, dessas difícil de
pagar. A matula que os carreiros levavam nas viagens tinha, quase
sempre, virado de feijão, arroz, carne de porco, torresmo, jabá, quiabo, giló ou
xuxu. Levavam num caldeirãozinho, no mais das vezes embrulhado num pano de
algodão. Também faziam parte a rapadura, o café e o "mata-bicho", a cachaça. Nos percursos longos, preparavam a comida na beira do caminho,
de preferência perto de algum riacho. Para isso, levavam o tripé de madeira ou
ferro, onde penduravam as vasilhas sobre o fogo para cozinhar os alimentos.
Acontecia também cozinharem com o caldeirão preso num arame ao argolão debaixo
da mesa do carro, principalmente quando chovia. Faziam também uma bebida que
chamavam de "jucuba", que era o melaço ou a rapadura misturados com água. Era
coisa antiga, usada nos últimos quartéis do século passado e começo do presente
, que faz muito tempo que sumiu da zona rural. RECEITAS DIVERSAS ARROZ DE CARRETEIRO (Fornecida por Dona Terezinha Benavente) Ingredientes: 250 g de arroz 350 g de carne seca 2 colheres de sopa de óleo, ou banha de torresmo, ou de
toucinho defumado 1 cebola (melhor roxa) bem picada 2 dentes de alho socados 2 colheres de sopa de torresmo miúdo pimenta vermelha, pimenta do reino e sal uma folha de louro. Modo de fazer Deixar a carne seca de molho em água fria umas 10 horas, ou "de
véspera". Então retire a carne da água, escorra bem até ficar enxuta. Corte-a em
pedacinhos, refogando-a a seguir em óleo bem quente (ou gordura de torresmo, ou
do toucinho defumado). Junte com a cebola bem picada, o alho socado, a folha de
louro, a pimenta vermelha e do reino a gosto. Adicione água aos poucos e deixe
cozinhar até a carne ficar bem macia. Escolha e lave o arroz. Quando a carne seca estiver cozida, acrescente o
arroz já limpo e o torresmo miúdo, cubra tudo com água e deixe cozinhar em fogo
moderado, até o arroz ficar no ponto. Prove para temperar o sal. Se quiser, acrescente pimentão verde, tomate, pimenta malagueta. É prato para
servir bem quente, e muito fácil de fazer. Imaginem que os carreiros o
cozinhavam nas paradas, num caldeirão pendurado num tripé ou no argolão do carro
de boi. FEIJÃO TROPEIRO ESPECIAL (Receita fornecida por Dona Avelina Tortorello) Ingredientes: 2 pratos fundos de feijão bem cozido, sem amassar, temperado com salsa,
cebolinha, cebola, pimentas, sal, azeitonas picadas, quatro tomates picadinhos
sem semente. Refogar e deixar reservado. À parte: fritar toucinho defumado, misturar 2 colheres de margarina e
adicionar sal. Fazer uma farofa com 1/2 kg de farinha de mandioca torrada, bem
solta. À parte: cozinhar, na água, 3 lingüiças calabresas grandes. Cortar em
rodelinhas. fazer um molhinho fraco de tomate, cebola, óleo, cheiro verde e
misturar as rodelinhas de lingüiça. Modo de preparar 1 camada de farofa 1 camada de feijão temperado 1 camada de lingüiça calabresa com molho Azeitonas e rodelas de ovos cozidos Repetir até acabar. Terminar com azeitonas, lingüiça e rodelas de ovos.
Servir assim, não vai ao forno e nem ao fogo. Servir com arroz branco, lombo e salada de alface COCADA CAIPIRA (Fornecida por Gracinha Pinheiro) Ingredientes 1 coco ralado 1 kg de açúcar 1 xícara de água Modo de Fazer Rale o coco, tire o leite grosso e reserve-o. Ponha o açúcar para caramelar.
Ponha a água, deixe ferver um pouco e ponha o coco ralado. Deixe secar, mexendo
sempre. Ponha o leite que tirou do coco e deixe dar o ponto. A cocada fica
escurinha. O açúcar deve ser caramelado, mas não deixe queimar, senão
amarga. BOLO DE FUBÁ (Fornecida por Dona Terezinha Benavente) Ingredientes 1 xícara de chá de farinha de trigo 2 xícaras de fubá 1 xícara de açúcar 1 colher de sopa de fermento em pó 1 xícara de chá de óleo 3 ovos inteiros 1 xícara e mais um pouquinho de água quente, Pitadas de erva doce Modo de fazer Num recipiente, coloca-se a farinha, o fubá, o açúcar, o fermento e
mistura-se muito bem, acrescentando-se os ovos inteiros e o óleo , sempre
mexendo bem com colher de pau. Por último, coloca-se a água e a erva doce ,
mexendo até ficar bem homogêneo. Unta-se a forma de orifício com óleo e farinha,
leva-se ao forno aquecido a 180º C por cinco minutos, depois abaixe e deixe no
fogo brando. Dependendo do tempo, fica mais escuro ou mais claro. Em geral, são
necessários 30 minutos. CURAU DE MILHO VERDE (Fornecida por Dona Avelina Tortorello) Ingredientes 13 espigas grandes de milho verde 1 litro de leite 1 colher rasa de manteiga Açúcar a gosto Canela em pó (opcional) Modo de fazer Corte as espigas, debulhe com faca, limpando bem o sabugo, inclusive
lavando-o com o leite que será usado. Bata os grãos no liqüidificador, juntando
o leite aos poucos. Passe por peneira fina, ponha o açúcar, a manteiga e leve ao
fogo mexendo sempre, de preferência com uma colher de pau, para não encaroçar,
até que o mingau fique com boa consistência. Retire do fogo e despeje numa
travessa de vidro ou louça, ou então em tacinhas, que devem ser molhadas antes.
Se preferir, espalhe a canela em pó levemente em cima. LICOR DE JABUTICABA (Fornecida por Dona Terezinha Benavente) Ingredientes 1 kg de jabuticabas 1 kg de açúcar 1 litro de álcool de cereais 40º 1 litro de água 1 pedaço de casca de canela e 2 cravos da índia Modo de fazer Esmague bem as jabuticabas numa vasilha de louça ou vidro, junte o cravo, a
canela e o álcool. Tampe bem a vasilha, e deixe ficar por 14 dias. mexendo uma
vez por dia com uma colher de pau. No 13º dia, adicione a metade do açúcar e a metade da água, com a
outra metade faça uma calda densa, espere esfriar e adicione aos outros
ingredientes. Deixe descansar por mais 14 dias. Ponha em garrafas bem fechadas, de preferência escuras e guarde em lugar
seco, fresco e protegido da luz. Quanto mais tempo ficar assim, melhor será o
licor. LICOR DE JENIPAPO (Fornecida por Dona Wílma Anjos Arruda) Ingredientes 7 jenipapos médios 1 litro de álcool de cereais ou cachaça de qualidade 7 xícaras de açúcar 4 xícaras de água Modo de Preparar Lave os jenipapos, descasque e corte bem miúdo. Em seguida, ponha em infusão
no álcool ou cachaça durante 15 dias. Depois, esprema bem numa vasilha. Prepare
uma calda rala com o açúcar e, ainda quente, despeje na infusão de jenipapo.
Mexa bem e deixe esfriar numa panela esmaltada. Engarrafe e deixe um mês ou dois para coar num pano e, depois, numa flanela.
Deixe descansar novamente dois meses, volte a coar na flanela e, ainda, no papel
de filtrar. E sempre preferível guardar o licor num lugar seco e em garrafa escura. Na
hora de servir, pode-se passá-lo para a licoreira. Dependendo da qualidade, o
licor de jenipapo fica mais gostoso com cachaça, em vez de álcool. agulhamento ou rosário - pequenos botões metálicos, arredondados ou ponteagudos,
colocados circularmente nas rodas, para enfeite.
ajoujo ou soga - cordão de couro cru colocado em argolas nos chifres dos bois de uma mesma parelha,para uni-los, e evitar que escapem em caso da quebra eventual de um canzil.
almofada da roda - parte central da roda, de forma quadrada, tendo uma espessura maior que o resto da roda. Tem em seu centro a amecha ou buraco da roda.
amecha ou buraco da roda - buraco na parte central da roda que é prensado na ponta da espiga do eixo da roda.Tem secção quadrada e perfil cônico. A roda é travada no eixo por meio de duas cavilhas, também cônicas.
arreia - Respiga de madeira, de secção retangular e de perfil cônico, servindo para travar partes do carro, como na roda e na mesa.
assoalho do carro ou mesa - Base do carro onde é transportada a carga. É constituida pelas chedas, cabeçalho e tábuas do assoalho.
azeiteiro - chifre de boi com tampa feita de couro, onde é guardado o azeite de mamona, utilizado para lubrificar a cantadeira. O azeite é aplicado com um pincel que fica ao lado ou dentro do azeiteiro.
braçadeira - peça de metal utilizada para travar as chedas e o cabeçalho, bem na frente da mesa.
brocha - peça feita de couro cru torcido utilizada para prender a cabeça do boi entre os canzis.
cabeçalho - peça central do carro e que une as partes constituintes da mesa. Vai da chaveta ao cadião, tendo em média de 4,5 a 5 metros de comprimento.
cadião ou recavém - prancha transversal de madeira, situada na parte traseira do carro e que une as chedas.
cambota - peça semi circular de madeira. Cada roda tem duas cambotas e um meião.
candieiro - geralmente é um menino que vai a frente do carro,conduzindo os bois da parelha de guia. É um aprendiz de carreiro.
canga de coice - peça de madeira que serve para manter a parelha de bois unidas ao carro. Esta canga é utilizada pelos bois que vão junto ao cabeçalho e que são os responsáveis por suportar o peso nas descidas íngremes e manobras do carro.
canga de guia - peça mais leve que é utilizada pelos bois encarregados de ir à frente, dirigindo os outros bois.
canga de meio - canga leve utilizadas nas parelhas que vão entre os bois de coice e de guia.
cantadeira - parte do eixo de secção circular e que fica em contato com o chumaço.Esta dupla, presa entre os cocões, é responsável pelo canto melodioso do carro de boi.
canzil - peça de madeira de perfil curvo que é colocado na canga para prender a parelha de bois. Cada canga tem 4 canzis, dois para cada boi.
carniço - tampa traseira de bambu que fecha a esteira ou canistro.
carreiro - pessoa que conduz o carro de boi carregando a vara de ferrão. Vai ao lado ou em cima do carro.
carro de boi - veículo simples para transporte de cargas agrícolas, mas que tem uma tecnologia extraordinária, advinda de muitos séculos de utilização em todo o mundo.No Brasil veio de Portugal e espalhou-se por muitos Estados, principalmente Minas Gerais e Goiás. Seu tamanho varia de acordo com o peso a ser transportado. Costuma-se falar em carro para 4, 6 ou até 10 cargueiros de milho.
cavilha, cavia ou cabia - pequena peça de secção circular ou triangular e que serve para travar peças de madeira que se unem nas várias partes do carro.
chapa de pião - aro metálico que circunda cada roda e que tem por função proteger a roda. Tem os piões, que são grandes pregos que atravessam o aro e a madeira. Com isto ajudam na tração do carro em lugares escorregadios.
chapa lisa - o mesmo aro metálico, só que sem os piões. O uso de um ou outro tipo varia de região para região.
chaveta ou chaveia - peça de metal que prende a canga da parelha de coice através do tamoeiro ao cabeçalho, impedindo seu movimento para a frente.
cheda - peças laterais de madeira que compõem a mesa do carro. As de boa qualidade são feitas de pranchas tiradas de árvores naturalmente tortas, com a curvatura necessária para a confecção da cheda, dando-lhe com isto muito maior resistência, pois a veia da madeira acompanha a curvatura da cheda.
chumaço - peça de madeira semi circular de madeira mais mole que a cantadeira e que juntas fazem o carro cantar e ringir.
cocões - peças de madeira em número de duas em cada lado da mesa e que se ajustam ao eixo do carro (nas cantadeiras), para que o carro possa ter tração
degolo oitavado - o eixo do carro é oitavado e a parte que fica entre as duas emborgueiras tem um estreitamento, que é chamado de degolo do oitavado.
eixo do carro - peça muito importante da transmissão do carro. É unido às rodas e ao mesmo tempo a mesa do carro. É uma peça única, normalmente feita de cabreúva e suas partes estão descritas no esquema número...
emborgueira ou morgueira - peça oitavada que fica de cada lado da cantadeira, cerca de três centímetros mais alta. Com isto impossilita a saída dos cocões de cima e também o deslizamento lateral.
encosto do cocão - peça de ferro colocada ao lado dos cocões e que tem por finalidade impedir que com o esforço e peso do carro os cocões se abram, prejudicando o andar e segurança do carro.
espigas ou ponta do eixo - são as duas extremidades do eixo onde as rodas são colocadas. Tem secção quadrada e perfil cônico para travar as rodas, que também tem amechas quadradas e cônicas.
esteira ou canistro - esteira de bambu com cerca de um metro de altura e que circunda a mesa do carro para o transporte de carga miúda, como milho, madeira, etc. A altura varia de acordo com o tamanho do carro.
fueiro - peças de madeira roliça com dimensão aproximada de um metro e que são colocados verticalmente ao redor da mesa para amparar a esteira ou a carga transportada.
furas das chedas - são os furos nas chedas onde são colocados os cocões.
furas dos fueiros - são os furos nas chedas onde são colocados os fueiros.
gato - peças de metal colocadas nas almofadas das rodas, transversalmente à veia da madeira para fortalecer a resistência da roda, enfraquecida pela presença da amecha.
inervação de canga - recobrimento por couro cru feito em cangas fraturadas, enfraquecidas por trincas ou até por enfeite.
meia lua - parte semicircular do cabeçalho que está em contato com o cadião.
meião - peça central da roda, de forma retangular e que junto com as duas cambotas, compõe a roda do carro.
olho, óculos ou oca - orifício situado nos limites entre o meião e a cambota e que tem por função amplificar o ringir dos cocões. Varia de forma e posição na roda de região para região. Observe que a linha que passa pelas ocas de uma roda é necessariamente perpendicular à linha que passa pelas ocas das outra roda.
orelha - peça de madeira colocada na ponta do cabeçalho logo atrás da chaveta e que tem por função impedir o deslizamento da canga para trás.
pião - prego metálico utilizado nos aros das rodas por alguns fabricantes de carro.Neste caso muitas vezes o aro não é soldado, sendo apenas superposto na emenda. Quem dá a resistência são piões.
pigarro - Suporte vertical, semelhante a um canzil que era colocado na parte dianteira do cabeçalho para que este não ficasse apoiado no chão quando os bois eram retirados do carro, ao fim do dia. Não é muito usado em Minas Gerais.
pincel - peça utilizada para espalhar o azeite de mamona na cantadeira. Fica junto ou dentro da azeiteira.
tiradeira ou cambão - peça comprida de madeira, com secção quadrada e que serve para unir uma parelha a seguinte: na parte da frente tem a chaveta e na traseira uma rabada, que é um trançado de couro para prender uma parelha à seguinte.
tamoeiro - peça de couro cru, colocado no centro da canga e que tem por função prender a canga à chaveta da tiradeira ou cabeçalho.
vara de ferrão - vara com um ferrão e argolas que o carreiro utiliza para conduzir o carro. As argolas com seu tilintar são suficientes para os bois entenderem as ordens, mas quando necessário levam umas fisgadas com o ferrão. Dizem que o bom carreiro não usa o ferro, só o barulho das argolas...
1 - O Carro de Boi - Foto e poema de Marcus Cremonese
2 - O Carro de Boi - Publicação para a 8ª Festa do Peão de São Caetano do Sul, São Paulo. Baseado em monografia inédita do Prof. Horácio Ramalho. 3 - O Carro de Boi de Goiás - Trabalho publicado no site do Procurador 4 - Carro de Boi - O Primeiro Carro Conceito - Trabalho publicado em 2002.
5 - Carro de Boi em Muqui, Espírito Santo - Trabalho de Ana Maria B.M.Lobato, Finalmente, quero encerrar, falando um pouco da Festa dos
Carreiros, realizada em 24 de abril passado em Santa Rita de Caldas. O desfile é
feito em homenagem a Santa Rita, padroeira da cidade e é uma tradição da cidade,
tendo sido iniciada pelo Monsenhor Alderigi, padre venerado na cidade e região.
A concentração foi feita no rancho do Toninho Panelão e dela participaram exatos
90 carros, praticamente todos de lida diária, que seguiram o carro com o andor
de Santa Rita e foram ser abençoados na igreja matriz da cidade. Digna de menção
é a hospitalidade mineira. Ela é quase indescritível: na concentração
reuniram-se cerca de 200 pessoas que lá foram carregar seus carros com lenha que
após o desfile, foi doada às pessoas carentes. Foi servido um farto e saboroso
almoço tipicamente mineiro, tudo oferecido e feito graciosamente pela comunidade
e que transcorreu na mais perfeita paz, sem o mínimo deslize. A população
acompanhou o desfile, aplaudindo todos os participantes. Abaixo, algumas fotos ilustrativas do desfile de carreiros em homenagem à Santa Rita. Se você quiser conhecer melhor a história do Padre Alderigi e do desfile clique aqui. Um caminhão chegando com a boiada e o carro Todos os carros foram carregados com lenha Primeiro carro do desfile com o andor de Detalhe do carro de Santa Rita, todo Recinto onde foi servido um lauto almoço a Animada reunião dos carreiros, tendo-se ao A bonita parelha de guia do carro madrinha. Vista de um carro, tendo como fundo a cidade de Santa Rita de Caldas e as belas montanhas de Minas Gerais. Um belo carro de bois moiros pretos, Desfile já na cidade indo em direção a Matriz, Um carro de bois caracu, de longos chifres. Outro conjunto de bois moiros pretos.
Os Causos
A Comida dos Carreiros
Glossário - As Partes do Carro de Boi
Referências e Trabalhos Consultados
Site
http://planeta.terra.com.br/turismo/guidoval/carroboi.htm
Apresentação de Luiz Olinto Tortorello. 1997.
de Justiça de Goiás, Serrano Neves, em 2002.
O endereço é: http://www.serrano.neves.nom.br/textafins/1tsa.pdf
O endereço é: http://www.cotianet.com.br/bancomaterias/emidio_a_.htm
publicado em 1968.
O endereço é: http://jangadabrasil.com.br/abril32/of32040a.htm
A Festa de Santa Rita de Caldas
para o desfile.
para distribuição aos pobres.
Santa Rita. O carreiro é o conhecido Zé Ne.
enfeitado de flores.
todos os participantes.Ao fundo os violeiros que animaram a festa.
fundo a mesa com a típica comida mineira.
com longos canzis.
para receber a bênção especial.
Quero prestar uma homenagem aos carreiros da bela cidade de Santa Rita de Caldas.
Este carro de lida, com 10 bois, é carreado pelo Pio Cláudio, carreiro de muitas histórias.
Meus agradecimentos ao amigo João Erasmo, que muito fez para que este trabalho se concretizasse.Aqui está ele carreando sua bela boiada, em seu sítio de Dois Córregos, SP.
A Miniatura
Tendo acompanhado o maravilhoso trabalho do mestre Zequinha na confecção de alguns carros de boi, acabei empolgado e encomendei para mim um carro para carneiros ou bodes, que é uma réplica perfeita do original, no qual se mudou apenas a madeira das rodas e da mesa (jacarandá da Bahia), permanecendo o eixo da madeira cabreúva.
Resolvi então, após ver na Internet algumas miniaturas, tentar fazer eu mesmo uma réplica, já que adoro mexer com madeira.Esta minha miniatura não é uma réplica perfeita, mas creio que atingiu seu objetivo, qual seja o de prestar mais uma homenagem ao mestre Zequinha, pelo muito que ele faz em manter nossas tradições muito vivas em nosso interior brasileiro.
A seguir, exporei algumas fotos das três peças e algumas curiosidades matemáticas provenientes das diferentes escalas utilizadas.
Belíssimo carro de boi fotografado por mim na Colônia de Férias da Afpesp, em Campos do Jordão, e cujas medidas me foram passadas pelo amigo Heber, da Associação. Diâmetro da roda: 1,14m Comprimento total: 5,35m Comprimento e largura da mesa: 3,15m e 1,20 m, respectivamente. Altura dos fueiros: 0,85m Distância transversal de roda a roda: 1,95m
Carro de bode ou carneiro, feito pelo Zequinha e que tem fotos nas páginas anteriores, que mostram toda a beleza da confecção de suas partes constituintes. A escala com o modelo anterior será aqui admitida como 1:2,2 aproximadamente.
Já a miniatura da minha lavra é toda em cabreúva, tendo eu procurado usar materiais naturais que já se encontrassem em escala.Esta foi a parte mais gostosa do trabalho: encontrar nas coisas do dia-a-dia estes materiais.A miniatura tem com o modelo anterior uma escala exata de 1:10.
Foto mostrando o carro de bode e a miniatura, para demonstrar a disparidade entre os modelos. Acharam a miniatura?
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O carro, com as rodas agulhadas, sendo que o aro é de latão. Os fueiros , canga, vara de ferrão e canzis são de pinho. |
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Parte trazeira do carro, mostrando o carniço fechando a esteira, argolão, pigarro, canga, canzis e brochas. |
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Vista lateral da miniatura, mostrando o carro carregado, não de espigas, que não cabem, mas de grãos de milho... |
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Parte superior do carro, com sua carga. |
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Vista lateral do carro de bode... |
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...e a sua relação com a miniatura! |
Vista inferior do carrinho, mostrando o eixo, cocão e chumaço, este feito de madeira mole. A única coisa que não consegui foi fazer o bicho "ringir o cocão"...
As curiosidades matemáticas ficam por conta das escalas em que foram feitas as peças e das quantidades de milho, caso os carros fossem carregados, como a miniatura. Escalas: Carro grande - 1:1 Carro de bode - 1:2,2, em relação ao carro original Carro Miniatura - 1:10, em relação ao carro de bode Milho carregado: Carro Miniatura - 0,185 kg.de milho debulhado. Carro de bode - 185 kg.de milho debulhado. Relação de volume c/miniatura: 1:1.000 Carro grande - 1.970 kg.de milho debulhado. Relação de volume c/ miniatura: 1:10.648 Segundo informações dos amigos do Setor de Milho da Universidade Federal de Viçosa, MG, aquele peso equivaleria a cerca de 1.300 quilos de milho seco com palha, o que estaria de bom tamanho para ser puxado, de acordo com a música do Daniel, por 8 bois, 4 cangas e 16 canzis! Não sei se alguém já viu uma carga de milho debulhado... Confiram os cálculos, por favor!
Autor:
Paulo Roberto Moura Castro
Contato: pcastro@widesoft.com.br
http://www.widesoft.com.br/users/pcastro1/carrodeboi.htm
http://www.tonicoetinoco.cjb.net